Conto: Gato Preto De Jhunior Reis - Capítulo 01


Gato Preto - Um conto de Jhunior Reis
Sinopse
Há perguntas que carregamos a vida inteira sem coragem de fazer em voz alta — e existem respostas que, uma vez ouvidas, não podem mais ser desfeitas. Se um ser capaz de responder qualquer coisa sob o sol e sob as eras se sentasse à sua frente, e lhe desse apenas dez chances, quais seriam as suas perguntas? E, mais importante: você estaria pronto para sobreviver às respostas?
Foi essa a oportunidade — ou a armadilha, dependendo do ângulo de onde se olha — que caiu no colo de Teodoro dos Anjos, jornalista de rotina cansada e curiosidade insaciável, ao receber um convite sem remetente, sem explicações, apenas um endereço e um horário rabiscados num papel áspero demais para ser comum. O destino: o Instituto Lengruber, um prédio isolado de quatro andares erguido no meio de um loteamento que parece ter sido esquecido antes mesmo de existir. O entrevistado: uma criatura antiga disfarçada de gato, pelagem negra como o vazio entre as estrelas, olhos de um roxo que parece guardar galáxias inteiras dentro de si. Seu nome — ou o que ele permite ser chamado — é Sham.
A regra do jogo é cruel em sua simplicidade: dez perguntas, sem direito a arrependimento, sem segunda chance. Cada resposta de Sham é generosa em verdade e implacável em consequência — porque conhecer o universo tem um preço, e esse preço não se paga em dinheiro, mas em pedaços da própria identidade. A cada palavra dita, Teodoro se aproxima um passo da verdade que veio buscar e se afasta, inevitavelmente, do homem que era antes de atravessar aquela porta.
Quando a décima pergunta for finalmente respondida, a entrevista chegará ao fim — e com ela, talvez, tudo o que Teodoro pensava saber sobre a vida, a morte, o amor, e o próprio significado de existir. Porque na sala silenciosa do Instituto Lengruber, sob a luz baixa de uma única lâmpada, o que está realmente em jogo não é a matéria do século que ele sonhou escrever. É a dúvida — a última coisa humana que lhe resta — e ela também terminará junto com a entrevista.
Sobre o autor
Jhunior Reis nasceu e cresceu no coração do interior do Brasil, num território onde o silêncio das noites era preenchido por histórias sussurradas de geração em geração — causos de assombração contados à luz de lamparina, lendas do folclore sertanejo que misturavam medo e encantamento em partes iguais. Foi nesse solo fértil de imaginário popular que floresceu, ainda cedo, seu fascínio pelas fronteiras nebulosas entre o real e o sobrenatural, entre o que se pode explicar e o que apenas se pode sentir.
Leitor voraz desde a adolescência, encontrou em H.P. Lovecraft a vertigem do horror cósmico — a ideia perturbadora de que o universo é vasto demais e indiferente demais para a compreensão humana; em Stephen King, a maestria de transformar o cotidiano em palco do terror psicológico; e em Ariano Suassuna, o orgulho de que o imaginário brasileiro, com sua poesia rústica e sua cosmovisão própria, é tão rico e digno de mitologia quanto qualquer tradição estrangeira.
Dessa tríade de influências nasceu uma voz autoral única: uma escrita que entrelaça o horror visceral e o horror cósmico com a alma do sertão brasileiro, criando universos onde o extraordinário não substitui o comum — ele se esconde dentro dele, à espreita.
É essa sensibilidade que sustenta a série "Universo Exterior", composta por treze livros interligados, na qual Júnior se dedicou a mapear as inúmeras faces do medo humano: dos pesadelos mais íntimos e psicológicos às ameaças cósmicas que fazem qualquer certeza humana parecer poeira. Em cada volume, a mesma obsessão central se repete sob nova forma — a tensão insuportável e fascinante entre o que somos e o que não temos coragem de saber.

Livro 1 - Gato Preto - Um conto de Jhunior Reis
Capítulo 1 - O Repórter
Havia ruas que terminavam em algum lugar. Esta não era uma delas.Estendia-se por uma distância que desafia qualquer lógica cartográfica, comprida demais para pertencer a qualquer bairro, qualquer cidade, qualquer mapa que alguém tivesse se dado ao trabalho de desenhar. Não era o comprimento que incomodava — era a ausência de propósito. Uma rua existe para levar a algum lugar. Aquela parecia existir apenas para que se andasse por ela, indefinidamente, sem a promessa de um destino.
O asfalto guardava um brilho opaco, quase líquido sob a luz fraca, como se tivesse sido derramado ali minutos antes — negro demais, liso demais, novo demais para uma rua que não levava a lugar nenhum. Não havia rachaduras. Não havia marcas de pneus, nem detritos, nem os sinais banais de uso que qualquer via deveria acumular com o tempo. Era como se o próprio conceito de "tempo" tivesse sido cuidadosamente removido daquele trecho de mundo, deixando apenas a superfície — perfeita, estéril, esperando.
Os postes se sucediam em fileiras rígidas e idênticas, espaçados com uma precisão quase matemática, cada um lançando um círculo pequeno e amarelado de luz que mal ousava tocar o círculo seguinte. Entre um poste e outro, a escuridão engoliu tudo. E, no entanto, o problema não era exatamente a escuridão.
Era a névoa.
Densa. Pesada. Do tipo que não cobre — ocupa. Ela não pairava sobre a rua como uma cortina fina; ela se instalava, se acumulava, tomava posse do ar como se tivesse mais direito a estar ali do que qualquer coisa sólida. Engolia a luz dos postes e devolvia apenas manchas baças, halos indistintos que tornavam impossível saber onde terminava o iluminado e começava o nada. Um homem poderia caminhar dez passos e perder de vista o lugar de onde tinha partido.
O céu não oferecia alívio algum. Nenhuma lua rasgava aquele breu. Nenhuma estrela ousava piscar através da massa nebulosa e imóvel que pairava no alto, baixa demais, pesada demais, como um teto colocado sobre um lugar que deveria ser aberto. Não era a sensação comum da noite — a noite tem seu próprio conforto, sua própria promessa de amanhecer. Aquilo não prometia nada. Era a pura arquitetura do isolamento, erguida em silêncio e névoa.
Nenhuma casa se erguia ao longo do caminho. Nenhuma janela acesa. Nenhum latido distante, nenhum motor, nenhum sussurro de televisão escapando por trás de uma parede. Nada que sugerisse que ali um dia existiria vida — ou sequer que alguém, em algum momento, tivesse planejado que existisse. Era um loteamento morto antes de nascer. Um projeto abandonado à própria sorte, longe demais de qualquer cidade para reivindicar pertencimento a ela.
E, ainda assim, não estava vazio.Lá longe, quase dissolvido na bruma como um borrão de tinta molhada, um prédio de quatro andares se erguia sozinho contra o nada. Deslocado. Errado, de um jeito que a mente humana reconhece antes mesmo de conseguir explicar por quê. Não parecia fazer parte da paisagem — parecia ter sido depositado ali, como um objeto esquecido por alguém que nunca teve intenção de voltar para buscá-lo. E não era apenas o silêncio ao redor dele que incomodava. Era a certeza — abstrata, mas inegável — de que alguma coisa já habitava aquele prédio muito antes de qualquer visitante colocar os pés naquela rua.
Foi o som de passos que rasgou o silêncio primeiro. Antes mesmo de haver algo para se ver, já havia algo para se ouvir.Vinha de longe, abafado pela espessura do nevoeiro, num ritmo apressado e irregular — o tipo de passo que pertence a alguém correndo contra um relógio que não perdoa atrasos. Aos poucos, como uma fotografia revelada em câmera lenta dentro de um líquido escuro, uma silhueta foi ganhando contorno em meio à névoa.
Um homem. Terno marrom, amassado nos lugares errados, como se tivesse sido vestido às pressas dentro de um elevador em movimento. As barras das calças caíam em alturas diferentes. Os óculos escorregavam pelo nariz suado, e ele os empurrava de volta com o dorso da mão a cada poucos passos, um gesto tão automático quanto respirar.
Debaixo do braço, apertada contra o corpo com uma força quase desnecessária, uma pasta de couro gasto — segurada como se pudesse, a qualquer momento, tentar escapar dali.Ele não tinha consciência de que media o próprio nervosismo pelo som dos sapatos batendo no asfalto novo demais — como quem conta algo sem querer contar, sem saber que está contando. Na mão livre, segurava um pedaço de papel dobrado tantas vezes que as dobras já ameaçavam se tornar rasgos. Um convite. Áspero ao toque, sem timbre, sem assinatura, sem qualquer selo que indicasse origem — apenas um endereço datilografado e um horário. Ele o apertava de tempos em tempos, um gesto compulsivo, como quem confere se um objeto ainda existe na própria mão só de tocá-lo, sem precisar olhar.
Fazia semanas que aquele papel não saía de perto dele. Tinha dormido com ele na mesa de cabeceira, tinha lido e relido cada palavra até decorar a curva exata de cada letra, como se a repetição pudesse revelar algo que a primeira leitura tivesse deixado escapar. Havia noites em que acordava no escuro com a estranha sensação de que o convite o observava de volta, ali sobre o criado-mudo, quieto, esperando. Não sabia explicar por quê, mas sentia — com uma certeza que não vinha da razão, e sim de um lugar mais antigo, mais animal — que aquele pedaço de papel era real. Que precisava atendê-lo. E que, de alguma forma que ainda não conseguia nomear, já não tinha mais escolha. Foi então que ele viu o prédio.
Parou por um instante — um único segundo em que o próprio corpo pareceu hesitar antes que a mente decidisse — e depois retomou o passo, um pouco mais devagar agora. A névoa engrossava conforme ele se aproximava, como se a atmosfera ali fosse mais densa, mais relutante em deixá-lo passar. Da bruma emergiu, aos poucos, a fachada de tijolos expostos, avermelhados pelo tempo e pela umidade, e sobre a porta principal um letreiro de ferro corroído pela ferrugem, ainda legível sob a luz amarelada do poste em frente:
Instituto Lengruber.
Ele conferiu o convite mais uma vez — o gesto absurdo de quem checa um endereço pela décima vez na esperança de que ele tenha mudado nos últimos cinco minutos. Não tinha mudado. Nunca mudaria. Guardou o papel no bolso interno do paletó, ajustou os óculos com dedos que tremiam de um jeito que ele preferiu não notar, e empurrou a porta pesada.
Diferente do que esperava — e ele não sabia bem o que esperava, mas certamente não era aquilo — a recepção não estava vazia.O ambiente era amplo, mas estranhamente austero, quase hostil em sua simplicidade. As paredes de concreto aparente não ostentavam um único quadro, um único enfeite, nada que suavizasse aquele vazio calculado. Cada passo dele ecoava mais alto do que deveria, reverberando contra o concreto nu como se a própria sala se ressentisse de sua presença.
No centro daquele espaço desprovido de qualquer detalhe humano, repousava uma grande mesa de madeira escura — maciça, antiga, tão velha quanto o próprio edifício, com marcas de uso que pareciam narrar décadas de negligência silenciosa. Atrás dela, um vigia de uniforme cinza parecia quase se fundir à penumbra ao redor, como se fizesse parte da arquitetura tanto quanto as paredes. Ele mantinha os olhos fixos num pequeno livro de capa preta, erguido à altura do rosto, e seu semblante carregava uma impaciência antiga, cultivada — o tipo de expressão de quem já sabia, antes mesmo de erguer os olhos, que alguém estava prestes a interromper sua leitura.
— Boa noite — disse o jornalista, a voz saindo mais fraca do que ele pretendia.
O vigia não se moveu. Virou a página devagar, com um cuidado quase cerimonioso, como se cada movimento precisasse ser executado numa velocidade que não pertencia àquela sala.
— Sou Teodoro. Teodoro dos Anjos. Sou jornalista, vim para uma entrevista marcada para…
— Eu sei — interrompeu o vigia, sem tirar os olhos do livro. Ergueu um dedo magro, quase esquelético, e apontou para a porta que dava ao corredor. — Ele já está aqui. Sala do fim do corredor.
Não havia mais nada a dizer. Teodoro atravessou o saguão sem formular outra pergunta e entrou no corredor estreito, iluminado por lâmpadas fracas que piscavam a intervalos irregulares, hesitantes, como se travassem uma negociação silenciosa consigo mesmas sobre se valia a pena continuar acesas. Ele apertou o passo sem perceber, embora, pelo relógio de pulso, tivesse chegado cedo demais — ainda faltavam minutos para a meia-noite marcada no convite.
No fim do corredor, uma porta entreaberta deixava escapar uma fina faixa de luz amarelada, quase convidativa em contraste com a escuridão ao redor. Ele se aproximou devagar, o coração batendo num ritmo que já não conseguia justificar apenas pela caminhada, e antes de entrar, inclinou a cabeça para espiar através da janela de vidro embaçado que separava o corredor da sala.
Vazia. Sentiu o peito afrouxar num alívio quase vergonhoso. Empurrou a porta e entrou.
A sala era maior do que parecia de fora — e mais escura do que qualquer sala deveria ser com uma lâmpada acesa dentro dela. A claridade vinha de um único ponto: uma lâmpada baixa, suspensa sobre uma mesa larga de madeira gasta pelo tempo, posicionada exatamente no centro do cômodo, como um altar cercado por um mar de sombra. O resto se perdia — as paredes, o teto alto demais para se distinguir, os cantos onde a luz simplesmente desistia de chegar.
Foi só quando os olhos de Teodoro se acostumaram à penumbra que ele notou as estantes. Encostadas nas paredes, quase invisíveis contra a escuridão, fileiras de prateleiras de latão sustentavam livros antigos — lombadas gastas, títulos apagados pelo tempo, alguns sem identificação nenhuma. O cheiro de papel envelhecido pairava no ar com mais intensidade até que o próprio frio da sala, um odor doce e mofado que sugeria décadas de abandono, de páginas nunca mais tocadas por dedos humanos.
Apenas uma cadeira cercava a mesa. E a mesa, por sua vez, estava completamente vazia.
O relógio de parede marcava 23h59.Teodoro sentiu o mesmo alívio de antes se espalhar pelo corpo, e murmurou baixinho, mais para si mesmo do que para qualquer ouvinte imaginário: — Ah, que bom… ele ainda não chegou. Vou fumar enquanto isso.
Tirou do bolso um cigarro amassado e um isqueiro velho, gasto pelo uso, e o acendeu com um gesto quase ritualístico — o pequeno conforto conhecido em meio a tanto desconhecido. Virou-se de costas para a mesa, fechando a porta com cuidado, e tragou a primeira fumaça devagar, deixando que ela lhe devolvesse, por um instante, a ilusão de controle.
Foi nesse exato momento que o relógio bateu meia-noite.E, com a última badalada ainda ecoando pela sala, uma voz surgiu — grave, serena, impossivelmente próxima, como se tivesse nascido de dentro das próprias paredes, ou de dentro da própria consciência de Teodoro: — Estou aqui.
Teodoro congelou. A fumaça do cigarro ficou suspensa no ar por um segundo antes de se dissipar. Lentamente, com a mão trêmula subindo até os óculos num gesto automático, ele se virou.
Sobre a mesa — exatamente onde a luz da lâmpada caía com mais força, como se tivesse sido posicionada ali para aquele único propósito — um gato preto estava sentado. Imóvel. Perfeito em sua quietude, como uma estátua esculpida na própria escuridão. E os olhos — dois poços de um roxo profundo, um roxo que parecia conter mais camadas do que qualquer cor deveria ser capaz de conter — estavam fixos nele.
O impacto daquela voz o deixou paralisado, a mão ainda crispada na maçaneta que acabara de soltar. O som parecia vibrar contra as paredes, dissolvendo qualquer vestígio de conforto que o cigarro lhe tivesse oferecido. Por um instante — apenas um instante, mas um instante que se esticou como borracha dentro da percepção de Teodoro — o ar da sala pareceu rarefeito, como se algo tivesse sugado parte do oxigênio só para tornar aquele momento mais nítido, mais impossível de esquecer.
Com um esforço quase físico para conter o tremor que subia pelos braços, ele soltou o metal frio da porta. A respiração saía curta, descompassada. Os pés hesitaram antes de se arrastarem, passo a passo, até a única cadeira disponível — cada passo pesando como se carregasse mais do que o próprio corpo. Sem desviar os olhos daquelas duas luzes roxas e magnéticas, tateou a pasta de couro, depois o bolso do paletó, até finalmente encontrar o caderno e a caneta. Engoliu em seco.
Abriu o caderno numa página em branco. Ajeitou a caneta entre os dedos suados.
E sentou-se diante da criatura, tentando — e falhando visivelmente — disfarçar o nervosismo que lhe subia pela espinha como água fria.
Fim Do Capítulo 01

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